quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Minutos

Eles imaginavam que faltavam 3 minutos. Como? No cotidiano do dia-a-dia eles sabiam.

Ele acordava todos os dias e corria pela casa com aqueles pés gordos e sujos. Engatinhava pelo chão do quarto a cozinha. Apoiava-se pelas paredes com seus passos mal ensaiados. Por instantes parava como se não entendesse bem o que existia ao seu redor ou quem eram as pessoas a sua volta, ou ainda quem em exato era o vulto ou quem em exato se escondia na escuridão matinal. E perdendo o equilíbrio encontrava a segurança em braços bem conhecidos, braços que o agarravam e o traziam para perto em segurança. O calor do colo da mãe lembrava o calor do sol, um calor do qual não possuímos controle e que em dias de frio apenas agradecemos e em dias de verão apenas amaldiçoamos. Não escaparemos deste destino agora e não se sabe bem no depois. No silêncio, no colo da mãe ele não via o vulto mais. Sentado na mesa, se encontrava de costas para as lembranças e para a porta, e o sol dava seus primeiros passos pela cozinha. Não havia mais lembranças presas nos olhos do menino, apenas o mingau quente a sua frente.

Ele saía de casa cedo, acordado pela esposa, se virava e tentava negar mais um dia como trabalhador. Mas logo estava de pé, afastando os pensamentos e, se dispondo a fazer o cotidiano. Roupa. Café. Enxada. Beijo na mulher. Rua. Estrada. Pedra. Chão. Estrada. Pedra. Chão. Poeira. Estrada. Pedra. Chão. Poeira. Curva. Estrada. Pedra. Chão. Poeira. Curva. Porteira. Enxada. Os dias raramente lhe eram diferentes e o que mudava era o guri. O homem colocava o chapéu no chão e olhava a vegetação crescendo desigual e lutando para se manter, ele esperava pelo sinal de poder começar, o sinal de poder enxergar o que iria além e disponibilizava a ele o poder de continuar. Durante o resto do dia a única coisa que se poderia ouvir era a conversa dura entre a terra seca e a enxada.

Era sempre assim, a primeira se por pé. Arrastava os pé pela casa, o sono ainda fazia com que ela lutasse contra a gravidade. Acordava todos quando guardava a louça, com isso se acordava também. Seu marido lhe dava bom dia, ela apenas grunia, não falava, não queria muito esforço logo cedo. Colocava a água para ferver e o pão amanhecido cortava em dois. Se sentava a mesa e esperava, o marido ainda viria do mesmo jeito, arrastando os pés. O marido comia. Pão. Café. Enxada. Ela e o guri. O ciclo só estava começando, o sol engatinhava seus primeiros passos pela manhã.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Jera

Ela via a vida como um pedaço de pão prestes a ser devorado por uma criança esfomeada. Via o mundo como uma mesa servida com pessoas pouco educadas. Ela via o mundo por um olhar cínico e cheio de pré-conceitos impostos por estes mesmo esfomeados. Ele via o mundo por entre grades, viu grades quando era pequeno, adulto, velho. A vida sempre lhe soava quadrada, cinza, fria, escura. Ele dispensava palavras, atitudes, sons, passava o dia em frente as grades de casa, olhando um mundo que tinha medo de descobrir.

Ela estava no ônibus, preocupada com seus afazeres num dia frio, com seus fones de ouvido bem posicionados, ouvindo alguma música qualquer que ela logo pularia por estar enjoada da playlist.

Estava parada esperando o sinaleiro abrir.

Ele estava parado, poucos metros a frente do ônibus. Imóvel. Segurava as grades com as duas mãos, como quando uma criança começa aprender a se equilibrar. Estático. Com os olhos cheios de medo. Fixo. Ela olhava pela janela, curiosa pelo novo trajeto queria identificar alguem, alguma coisa, um cheiro, uma cor. Devorava tudo que via com aqueles olhos castanhos escuros.

Logo a frente o ônibus fez uma breve pausa. Logo ela olhou para ele. Ele não olhou para ela, quem sabe nem tenha notado o ônibus. Ela olhou pelo tempo que pode, pareceram eternos e se sentiu como se segurasse naquelas grades. Se sentiu estática. Se sentiu fixa. Não sentiu um movimento dos olhos. O ônibus andou, este não permanecia estático. Ela quis pular a música, mas segurava em grades tão frias quanto poderia imaginar, a música tocou inteira.


Jera, vem do indonésio e significa estar assustado com alguma experiência anterior que tenha gerado medo e deseja nunca mais passar por isso.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Laura era assim

Há quem seja capaz de soltar sem dores aquele que ama. Há quem prefira segurar até o ultimo segundo. Há quem nunca tentou. Laura era nova, não sabia o que era amor, não sabia o que era segurar a mão daquele que ama com força e depois soltar com mais força ainda. Não sabia que o mundo era redondo e girava todos os dias de um jeito que não nos deixa mais tontos do que já somos. Não sabia de onde os bebês vinham. Não sabia como era um pé de abacaxi, muito menos de laranja. Mas o mar já havia visto, azul, grande, gelado e assustador.

Laura era assim, naturalmente pura. Educadamente egoísta. E gostava - até aonde podia entender de gostar - de ser assim. Laura era assim. Quando resolveram apresentar o pé de laranja e de abacaxi a Laura ela se assustou, correu, chorou, naturalmente assustada e educadamente interessada. Laura era assim. Sua mãe a colocou no melhor vestido florido, com seu melhor sapato, com seu melhor chapéu, com a sua melhor forma de poder ser apresentada. A mãe e sua melhor boneca.

O dia era cheio. Cheio de Sol, de azul, de verde, de barulhos, de mosquitos, de barulhos, de verde, de azul, cheio de Sol. Laura era naturalmente só sorrisos e educadamente devotada a tudo de novo que via. Até que quando ficou sozinha se viu rodeada de solidão, cheia de verde, de azul, de Sol, de barulhos, de silêncio. Foi a primeira vez que sentia a mão forte se soltar, entre ela e sua mãe. Laura correu feliz, cheia de angustia natural e liberdade educada. Laura era assim.

Mas conforme seu primeiro momento de liberdade passava, sua curiosidade ia ficando mais aguçada, mais profunda, mais densa. A naturalidade feminina. Laura era assim. A situação a fazia assim. A liberdade verde a fazia assim. Exigia que se fosse assim. Laura em sua atemporalidade infantil buscou cada vez mais pelo desconhecido e achou seu primeiro amor.

Seu amor foi infantil, foi pequeno, cabia na mão, era puro como ela. Naturalmente sozinho. Naturalmente assustado. Era um amor inexplicável a pequenos olhos. Ela o segurava o mais forte que podia com medo de matar o delicado passarinho. Pássaro que ela não sabia o nome e logo foi colocando um apelido. Laura era assim. No instante que o segurava, se perguntava o que faria com ele e dentro de si dois caminhos se abriram. Laura poderia tomá-lo para si e ele seria cuidado e amado todos os dias ou abriria a mão com mais força do que fechou e o deixaria escapar? Aquela dualidade sem nome a dominava, como um cabo de força não sabia o que pendia. Laura não era assim. Por vários minutos, ainda com o pássaro preso por entre suas mãos ela corria pelo campo. Ele era um amigo, um confidente, um pedaço de liberdade entre as mãos. Laura era assim, naturalmente gananciosa. Educadamente feminina.

Laura por instantes parava, olhava, entreabria as mãos, dava um sorriso generoso, sussurrava algo e logo se colocava a correr por entre aquele campo. O pobre pássaro nada fazia, não poderia fazer nada. Apenas se fazia presente no silêncio. Um silêncio bem compartilhado, um silêncio excludente que fazia Laura escolher se o libertava ou não. Um silêncio que dilacerava sua liberdade compartilhada. Quando Laura cansou de correr pelos campos foi se aproximando da casa aonde sua mãe estava, olhou para o pequeno amigo indefeso e julgou que era uma das maiores pessoas da terra, pois tinha uma vida em suas mãos - mas quantas vidas nós temos e deixamos escapar sem ao menos nos questionar os dois lados da moeda? Laura era diminuta ainda em vários aspectos. Mas sabia que aquilo entre ela e o pequeno em suas mãos não seria para sempre. Sabia que o amor dela era muito para ele e o dele, pouco para o dela. A menina, quem me dera você não saber o que é amor. Quem me dera você não precisar abrir a mão com mais força do que teve de fechar. Ela beijou o bico do canário, lhe deu adeus, o segurou por mais alguns segundos por entre seus dedos e deixou que o que tinha escapasse pelo vão de sua fragilidade naturalmente infantil. Ele voou, sem olhar para trás, Laura ficou ali naturalmente pura, educadamente egoísta. Como se tudo fosse apenas uma lembrança do irreal.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Seu Antônio

Todos os dias, as 7 horas da manhã em ponto, ele acordava. No inverno ou no verão. Já passava de um costume, não dormia depois daquele horário, era a idade. Tinha 63 anos, negro, órfão de pais, viúvo de esposa, sozinho no mundo. Vivia numa casa pequena de aluguel, 150 por mês, no bairro alto. Era o que dava para pagar com o salário mínimo que recebia. A casa tinha um quarto, um banheiro e uma cozinha junto com a sala, era simples, sem muitos móveis, com muita sujeira. Não recebia visitas. Se absterá do mundo, se absterá das pessoas. Mas gostava de observar seus trejeitos. 

Ele levantava às 7 horas, se vestia conforme o clima. Se o calcanhar, quebrado quando jovem, doesse iria chover. Se acordasse com dor nas juntas, era frio. Mas se a garganta estava seca, era sinal de sol. Ia até a padaria, comprava três pães. Ele não tinha mais emprego, era velho, semi-analfabeto e os dias em que tinha alguma serventia nesse mundo já estavam para trás a muito tempo. Passava margarina, tomava um gole de café preto sem açúcar e imaginava que a vida poderia ter sido diferente se ele tivesse feito diferente. 

Às 7 horas, Seu Antônio já sabia seu caminho todos os dias. Era um romântico ainda incorrigível, todos os dias depositava uma flor, que ele mesmo colhia em seu pequeno quintal, no túmulo da única mulher que aprendeu a amar. Passava um tempo que nunca parecia o suficiente. As vezes por horas, contando todos os mínimos detalhes de seu dia silencioso. Em outras, inventava histórias por se achar desinteressante depois de todos esses anos. E por vezes, depois de analisar o que fazia, se sentia bobo e louco por conversar com a grama, as pedras e o vento e ia embora antes que cinco minutos se completassem. 

Ele era feliz, não podia se negar. Mas sabia que dessa felicidade nem tudo era sorrisos. Antônio, antes de aceitar a vida que mais uma vez era lhe imposta a dez anos atrás, sofria por não entender porque precisava estar sozinho de todos, porque mesmo depois de tantos anos trabalhando naquela empresa fora demitido, não entendia porque foi deixado sozinho aos 14 anos e depois aos 53 anos. Não entendia porque da necessidade da vida não lhe dar a oportunidade de ter com quem conversar. 

Antônio gostava de ir ao terminal do bairro, gostava de se sentar ao banco e ver as pessoas passando, cada uma em seu próprio tempo, cada uma em seu próprio momento. Ele aprendeu que ficando ali, quietinho, as pessoas em algum momento iriam notá-lo. As vezes demorava para conseguir algumas palavras, em outras ele nem precisava se esforçar. 

De tanto ir e apenas ficar lá sentado, os funcionários nem cobravam mais dele a passagem. Apesar desses gestos, desses contatos, poucos mexiam com nosso velho Antônio e muitas vezes os funcionários o pegavam cabisbaixo e sem vontade de conversar. Ele sempre variava as estadas no terminal, nunca eram horários certos ou dias. Por mais triste que esteja ou frio, ele permanecia. Talvez por sentir que esse era um dos poucos momentos que ainda se sentia humano. Talvez por sentir que aquele era o único momento que não se sentia sozinho. 

Antônio já não sonhava mais em acordar com um sorriso nos lábios, mas queria apenas poder dormir com um.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

A fuga de Lili


São oito páginas no word e três anos de blog :)

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Toda mudança nos impõe buscas sobre o que queremos ou o que somos realmente. A minha, entretanto, não teve nada de muito significativo. Apenas me mudei. Nem todos precisam de uma desculpa pessoal para mudanças. A muito cheguei à conclusão de que mudanças só são difíceis às pessoas que buscam se prender ao passado e a conceitos que julgam certos. Eu não possuía conceitos e ainda acredito não os possuir. Eles foram me tirados, um a um, por causas que vocês julgam como regras naturais.
Em um verão de 2004, chovia muito em uma cidade que a principio não era meu ponto final, mas que favorecia aos desconhecidos, um local perfeito de silêncio pessoal. O povo, como é de se imaginar em uma cidade pequena, era calado. A minha chegada atiçou olhares, assim como algumas línguas, afinal, em pleno século XXI, o caminho era exatamente outro, principalmente para uma garota tão nova e sozinha.
A decisão de ficar por aquela cidade foi mais por conveniência do que por interesse. Acabei achando uma casa com um preço menor do que imaginei. Para quem nunca foi ao interior, acha que é como viver num filme de interior hollywoodiano americano, mas não, a vida é bem mais pacata do que você imagina. O tempo passa mais devagar do que pode-se aceitar e apressar seus afazeres só faz você parar em sua varanda por um tempo maior para poder fumar e ver quase ninguém andando pela rua. Você aprende a gostar da rotina.
Em pouco tempo, fiz amizade com as vizinhas e algumas meninas da minha idade e logo me encaixei de forma mais interiorana e consegui um emprego de meio período em um supermercado para poder sustentar, ao menos, os meus dois companheiros: um gato velho e malhado e o meu vicio, o cigarro.
No outono e inverno, chovia quase todos os dias e fazia frio sempre a noite. Em seis meses me acostumei e já nem ligava. Nesse meio tempo, eu passava quase todas minhas tardes livres enfurnada em livros e a noite com minhas novas amigas no único bar que fechava mais tarde, 22h30. Essa rotina permanecia pela primavera e só se quebrava no verão. Eu esperava pelo verão para explorar o que a cidade me escondia. E como num filme, numa manhã, me arrumando para ir ao trabalho, o sol deu as caras depois de tanto tempo. Foi como se tivesse nevado, haviam crianças a correr pela rua gritando de alegria, as mulheres colocavam a roupa lavada nos varais do quintal. Foi a primeira vez que a cidade se abriu para mim. Eu sorria.
Por finais de semanas, corríamos entre florestas, caçávamos cachoeiras e aprendíamos a nos esconder dos pernilongos que corriam as nossas casas no final dos dias. Era como se tivéssemos em outra cidade.
Mas assim como o verão trouxe o sol, trouxe novos forasteiros à cidade. Não chegaram juntos e nem na mesma época. Mas o primeiro veio no segundo mês do verão e se mudou para uma casa próxima da minha e, desta vez sendo parte da cidade, fui inserida nos rumores e fofocas, que cercavam meu novo vizinho. Mas existe um preço a se pagar ao adentrar esse mundo, tive de contar minha história para conhecer novas e notei que deveria ser cautelosa em revelar meu passado, então eu contei.
Na época, eu possuía 21 anos e estava noiva do meu primeiro namorado, depois de 5 anos namorando e 2 anos vivendo juntos. Meus pais eu não tinha. Eles haviam morrido quando eu tinha 18 anos, em um acidente de carro com um ônibus na autoestrada. Eu era a mais velha, tendo uma irmã 10 anos mais nova que sumiu no dia em que noivei e nunca mais foi encontrada. Minha vida, até aquela época, tinha sido um mar de infortúnio que mudou com o noivado. Ambos estudávamos medicina na universidade federal do estado e orgulhávamos parentes e amigos. Porém, um dia meu noivo enlouqueceu e a demência o
roubou de mim. Eu acabei largando a medicina no último ano para nunca mais voltar. Vendi tudo e vim me refugiar em outra cidade, construindo um novo futuro. Foram 4 anos entre disputas judiciais por bens materiais e disputas pessoas minhas se deveria ou não partir.
Naquele momento, minhas amigas entenderam o meu constante medo em me relacionar e criar laços. Mas havia alguma coisa neste novo integrante da cidade que eu só havia ouvido falar. Ele era três anos mais velho do que eu. Médico, veio a cidade por conta de um concurso publico – eu me perguntava quem conseguia informações assim rápidas. Era solteiro, havia tido uma noiva que morreu por lepra. Ele parecia ter roubado minhas desculpas, ou eu roubei as dele inconscientemente? Sabia se também que havia trazido sua mãe para a cidade, pois ela necessitava de cuidados especiais com a saúde. Mesmo vivendo aqui, ele trabalhava na cidade mais próxima, diziam que era o melhor a se fazer quando se temia ser o único médico geral. Por conta disso, mal o viam. Saia cedo por volta das cinco da manhã e chegava quando a Lua já batia em nossas janelas. Era um fantasma em carne e osso vestido de branco.
Levou muito tempo até que conseguisse um contato visual com ele. Aconteceu quando o outono retornava e começava a expulsar o calor do verão, fazendo todas as folhas caírem e colorirem o chão. Eu estava prestes a ficar mais velha e havíamos decidido dar uma festa na minha casa entre os pés de Ipê que coloriam o chão de amarelo e rosa. Como foi combinado, eu dava a comida e minhas amigas trariam os convidados. Naquela noite sem saber, conheceria Maurício.
Dentro de um vestido florido e com um sorriso no rosto, ia cumprimentando meus convidados um por um, a música dava um toque amistoso aquele encontro. Quando ele entrou, ainda vestido de branco, sorriu e tirou de suas costas um buquê de cravos vermelhos. Felicitando-me e tentando amenizar a estranheza de aparecer ali.
Desculpe-me vir assim. Deixe me apresentar, sou Maurício, seu novo vizinho. Desculpe pelas flores. Quando soube que a festa na verdade era seu aniversário, tratei de matar algumas flores da minha mãe.
Eu sorri, não havia o que dizer, apenas olhei pro lado e vi que minhas amigas sorriam e, naquele momento, entendi o propósito das flores.
- Não tem como eu lhe garantir que elas continuarão vivas por muito mais tempo, Maurício – sorri. Mas farei o possível. Aliás, me desculpe. Lilian, meu nome é Lilian.
Sorrimos de um jeito constrangedor e eu me afastei para colocar as flores num vaso quando sinto que Samanta corre em minha direção, com um sorriso nos olhos, dizendo que aquela era a surpresa da noite e, sem lhe dar muita atenção, digo de forma apática minha falta de interesse.
Por toda noite, conversei com os convidados sobre coisas cotidianas, como era o certo a fazer e deixei o esplêndido convidado com minhas amigas. Era visível que havia mais interesse partido do lado delas para com ele do que meu. Não seria ali que nos envolveríamos, diante de tantos olhos. Naquela noite quente de sábado, não dormi. Tive como companheiro o meu vicio e um livro na varanda da minha casa. E como esperava, passei mais tempo olhando o vazio da rua iluminada do que as páginas do meu livro. Quando o relógio marcou exatas duas horas da manhã, um vulto chamou minha atenção na rua. Mauricio saia de casa e caminhava atravessando seu quintal em direção a minha casa.
- Não consegui dormir também - Sorriu e parou diante da varanda.
- Não, não é todo dia que conseguimos uma noite dessas para esses lados - Retribui o sorriso - Não quer entrar antes que os pernilongos te comam vivo?
Ele entrou sem muito se intimidar, sentou-se numa cadeira ao meu lado, me olhou por
alguns segundos e seguiu meu olhar para a rua.
- Sabe - disse, tentando começar um diálogo - Estava em casa fazendo exatamente isso que você está fazendo. - Eu o olhei e sorri, ele retribui.
- Gosta de passar sua madrugada olhando o nada e sentindo o silêncio te rodear?
- Não exatamente - ele afirmou - Gosto de pensar na vida, mas hoje quando te vi aqui sozinha, fiquei imaginando o que você pensava tanto. Acho que todas as minhas teorias acabaram de ir embora. - Silenciou.
Ficamos olhando a rua por um tempo que o relógio esqueceu de contar e quando me voltei a ele, vi que ele já havia buscado meu rosto a um tempo e disse:
- Cansei de pensar sobre o mundo quando vejo que o mundo já se esqueceu de mim, Maurício. Resolvi que é hora de deixá-lo de lado e ver como as coisas saem sem ele.
- Você fuma há muito tempo?
- Só quando estou sozinha - respondi.
- A quanto tempo você está aqui sozinha?
- Fumo a cinco anos, mas aqui estou a um pouco menos de um ano.
- Posso ser petulante e saber o que houve com você? Suas amigas acabaram comentando por cima sobre sua história e eu acabei ouvindo.
Olhei dentro do fundo de seus olhos e vi o quão desesperados eles eram, ele estava desesperado por um refúgio.
- Aconteceram-me fatalidades quando me preocupei em olhar o mundo e só. Sobre esses comentários, você vai ouvir vários. Não apenas sobre mim, mas sobre todos. Não dê ouvidos.
De longe, vi um animal correndo. Era meu velho gato, Ámon, provavelmente fugindo de uma de suas artes e se escondendo no meu colo. Era hora de se despedir antes que eu
acabasse me envolvendo mais com Maurício e voltar a ser noticia na cidade. Despedimos-nos com um aperto de mão e tentei dormir, mesmo sabendo que seria em vão.
Os dias voltaram a ser os mesmos na segunda-feira e a rotina me abraçava novamente. Mas quando os finais de semana chegaram, um novo membro participava de nossas aventuras interioranas e me rendi. Rendi-me a Maurício cinco semanas depois do meu aniversário.
O frio veio nos fazer uma visita antes do tempo naquele fim de semana e resolvi me arriscar a ficar na varanda. Não havíamos feito nada durante o dia a não ser ficarmos deitados com cobertas, vendo filmes e rindo do que a tevê nos proporcionava. Maurício se deitou ao meu lado e buscou minha mão escondido de todos, eu deixei. No final da tarde quando todos se despediam, Maurício sussurrou algo em minha orelha que não consegui entender e foi embora. Todos viam o interesse cego dele sobre mim, mas eu não ouvia comentários sobre, talvez me resolvessem poupar. Mas naquela noite, enquanto tentava me ajeitar à coberta e tomar meu café, ele apareceu correndo e entrou varanda a dentro, quase arrebentando a tela de proteção.
Naquela noite, Maurício não foi dormir em casa. Sem se preocupar se seriamos vigiados ou criticados, ele me arrancou daquela cadeira fria e me envolveu em seus braços como se eu acabasse de ser resgatada de um trágico acidente. Envolta em seus braços em mais nada era capaz de pensar, ele acabara de me anestesiar. Naquela noite, percebi que Maurício não pedia licença, ele simplesmente fazia. Os pudores de suas mãos parecem ter sumido e substituídos pelo desejo de me possuir. Com uma mão me ergueu e com a outra abria espaço pela casa, até encontrar minha cama, aonde foi exatamente que me soltou e ali mesmo, ele traçou cada caminho sem pudor pelo meu corpo. Nossas roupas voaram fazendo com que nossa pele quente se encontrasse. Dividíamos ali um segredo silencioso, entre olhares, beijos e suor. Consumimos o próprio silêncio e quebramos as barreiras que palavras e os corpos proporcionavam. Naquela noite e por várias outras, nos pertenceríamos em segredo. Ele fugiu pela escuridão antes que alguém o notasse e eu dormi naquela noite como a muito não dormia. Naquela semana, não fumei.
Demorou um tempo para que conseguíssemos nos ver e pensar nele era fazer dos meus  dias, dias perdidos. Nós estávamos perdidos e quase todas as minhas noites possuíam um nome. Passamos a primavera apenas nos revelando a Lua. Éramos amantes que sobreviviam sobre um segredo.
Mas quando as folhas secas começaram a deixar as árvores nuas e sem pudor, fomos obrigados a dar um passo a frente ao que tínhamos. Dávamos um passo a nossa confiança de se confessar. Não nos expomos de maneira direta, mas fomos passo a passo numa etapa que se chamava comprometimento, mas ele se anulava a cada passo novo que percorríamos. Talvez a exposição que sofríamos, deixava aquele gosto de pressão que, a momentos anteriores, não tínhamos e meu companheiro se afastava.
A chuva e o frio voltaram e sofríamos como se fosse a primeira vez que a temperatura caía. Todos voltaram a se recolher e a cidade fechou-se em si, como no dia que cheguei. A chuva não deu trégua por semanas, choveu por quase um mês e quando o céu nos deu um dia de trégua, Dona Glória morreu, mãe de Maurício. Foi algo singelo, calado, ninguém a conhecia de vista, alguns até achavam rumor a existência desta pobre senhora. Na noite do enterro, soube que aquele era o dia de aniversário de Maurício. Por dias ele se isolou em sua casa se desfazendo dos pertences da mãe e eu era incumbida de sumir com as coisas antes que ele se arrependesse, não podia ficar nem um minuto a mais. Mas mesmo depois desses dias isolados, Mauricio parecia ter mudado, ele relutava em sair, passar um tempo comigo ou com as pessoas que tinha contato. No hospital, havia sido afastado por agir de forma errada na mesa de cirurgia. Quando me perguntavam sobre ele, nem eu sabia mentir.
Seus gostos começavam a me assustar. Ele passava dias recluso em outra cidade e voltava. Nunca me falava aonde ou o que fazia. Levava dias, às vezes semanas, e nos dias que ficava pela cidade, ficava em casa com todas as janelas e portas trancadas. Aquelas escolhas dele me davam a sensação de voltar a atitudes que havia prometido ter deixado para trás nesta nova vida. Mas busquei deixar que a vida dele não interferisse a minha e fiz do cigarro minha melhor companhia novamente. Não busquei estar com ele mais, não busquei fazer parte das escolhas dele. Por dias, tentei me enganar, esperando ele na varanda. Quando completou um mês de sua completa reclusão, ouvi os falatórios de que ele estava arrumando as coisas para se mudar, mais uma vez. Como mal parava em casa, fui a sua casa me despedir e encontrei um mundo completamente diferente do que entrei um dia. Ele havia transformado a casa em uma sala de anatomia do século 18. e senti sufocada, haviam muitos animais empalhados, o cheiro de formol corria por todos os cômodos. Órgãos que eu não sabia dizer de onde haviam saído.
Saí da casa de Maurício em pânico total. Corri para casa e dei de cara com ele, sentado em minha varanda. Ele vinha se despedir e dizer que sempre que possível estaria aqui para me ver e cuidar da casa da qual dizia ter criado laços. Passamos mais alguns minutos conversando sobre a mudança e o trabalho que tudo isso dá, quando ele se foi. Esperei duas semanas, e parti para outra cidade. Era hora de ir finalmente, era o final do inverno de 2006.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O nascimento das nuvens


Quando saia de casa para ir a creche, ele viu a neblina e, pela primeira vez, teve consciência do que via. Sua mãe viu tamanha empolgação escrita em seu sorriso e pelo desejo de sair correndo pelo quintal que, por alguns momentos, deixou-o correr entre a névoa. Quando ele voltou, calmamente abaixou-se até ficar em sua altura e perguntou.
- Filho você sabe como as nuvens nasceram?
Ele, ainda respirando fundo pela correria, apenas negou com a cabeça. Ela então sentou-se no chão e o puxou para perto dela, demonstrando que então contaria.
- As nuvens nasceram há muito tempo atrás, quando o mundo não existia do jeito que conhecemos hoje. Antes de nós humanos cuidarmos desse pequeno planeta, as Estrelas faziam isso pela gente e fizeram por um tempo até que tivéssemos consciência dos nossos atos. A sociedade das Estrelas sempre foi muito organizada. Era o Sol a estrela maior que cuidava de tudo e buscava dar a todas elas total escolha do seu futuro. Elas, porém, só podiam escolher dois caminhos, ou continuavam estrelas em um lugar mais distante para continuar sua missão e legado, ou viriam a terra e viveriam nela como pudessem como pessoas.
- Mas entre as Estrelinhas, existia uma em especial que não tinha ideia do que gostaria de ser quando chegasse a hora. Ela perguntava para todas as outras amigas dela, mas nenhuma entendia suas dúvidas e mais encucada ela ficava. Até que o seu dia chegou e ela falou para o Sol que não sabia o que queria e que gostaria de um tempo para pensar. O Sol, por sua vez, propôs a pequena Estrela que ficasse um tempo em cada uma e, no final, ela faria sua escolha.
- De comum acordo com o Sol, ela foi. A primeira escolha seria ser um humano. Isso foi algo que maravilhou a pequena Estrela, não só por poder se locomover facilmente, mas por comer e buscar por diferentes comidas e poder ver as mudanças acontecerem de perto de algo que eles trilharam para aquele lugar. Mas, com a duvida ainda dentro dela, toda noite ela olhava para o céu e sentia falta de suas amigas, do aconchego de seu calor. Logo, ela pediu para o Sol para que ele desse a oportunidade de ver como seria sua segunda escolha.
- Quando a Estrelinha acordou, viu que se encontrava no espaço, sendo o que sempre foi. Mas ela era maior, bem maior do que estava acostumada. Ela viu que estava cercada de novas amigas, possuía um brilho diferente e que estava distante da Terra. Isso a magoou muito, pois ela sentia falta de poder observar as coisas que aconteciam por lá, principalmente quando se lembrava de como era ser um humano. Quando passou o tempo, a Estrelinha voltou a falar com o Sol e este a pediu que decidisse, mas mesmo assim ela ainda não conseguia tomar uma decisão, sua energia estava dividida nos dois lados. O Sol então pediu que ela esperasse mais um dia terreno, pois ele tinha um novo plano para a pequena.
- Quando o Sol a chamou, ele lhe explicou que aquilo seria apenas um experimento e que talvez ela ainda tivesse de escolher entre sua velhas opções, mas que faria mesmo assim. Explicou que ela não ficaria nem longe dos humanos e nem longe do céu e que, a partir daquele momento, ela cuidaria dos humanos mais de perto e daria a eles algo em troca de seu amor e algo a temer quando eles errassem em sua evolução, Ela se tornaria a primeira de todas e a responsável pela organização. A partir daquele momento, ela se tornou uma nuvem.
- Assim ela viveria entre os dois limiares, não se afastaria da terra nem dos céus.

terça-feira, 31 de julho de 2012

Contrastes imperfeitos


Para a decepção alheia, ou não. É o Transbordar, reescrito. Eu fiquei incomodada com ele apesar de ter postado e quando lia, me vinha coisas que não estavam ali. Agora, acredito não faltar nada.

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Era uma chuva que não duraria. E com sua pressa cotidiana ela por pouco não esqueceu seu coração que nos últimos tempos pesava como se uma outra pessoa agora estivesse dentro dela. Pegou seu coração, dividiu o peso entre os braços e antes que esquecesse pegou o guarda-chuva. Um bônus para que ela parecesse atrapalhada entre bolsa, livro e roupas pesadas. Correu, correu como se fosse a única coisa que ela pudesse fazer naquele momento. Ela possuía muitas duvidas e muitas destas ela tentou não carregar consigo, mais estavam presas a seu coração e na distração de seu caminho tortuoso acabou fazendo o caminho mais longo.
  O ônibus estava cheio, abafado e embaçado. Não havia escolha a muitas pessoas. Era como prender ratos sem nenhuma escolha de fuga da realidade e ver seus monstros saírem para brincar. Você nessas horas sempre tem duas escolhas: ou brinca com sua fuga doméstica aquela que você ou trouxe de casa ou que inventa na hora para se distrair, ou então brinca com os monstros dos outros. Ela por sua vez, preferiu ali evitar maior contato do que já havia tido em todos os seus dias e fingia ler algo. Olhos fixos ora no livro, ora no caminho que tomava.
  Ela gostava de afogar alguns pensamentos na sua própria duvida de ser, fugir deles era um prazer que poucos podiam dá-la. E de lá, se manter no silêncio de um domingo frio amanhecendo. Até que eles acordassem, mesmo que tardios, maduros. E quando viu, brincava com seus demônios pessoais. E de tanto brincar, perdeu o seu caminho e teve de refazer uma boa parte.
  Ela não queria lembrar, ela não queria afogar nada, ela não queria amadurecer pensamentos que ainda preferiam estar se modificando e criando outras raízes. Mais escolhas eram feitas, as vezes, sem sua permissão eminente. Apenas fechou os olhos e aceitou o que lhe era dado. Deus sempre soube escrever de forma reta em linhas invisíveis a qualquer um.
  Na hora de descer do ônibus, a primeira escolha foi feita. Deveria partir sem um item dos quais carregava. Não por que o mundo a pediu isso, mas por que sua mente se afogava em duvidas que surgiam e aumentavam a cada aproximar do destino e de tão pesado o seu maior demônio tomou conta do que poderia se desenrolar que ela apenas partiu. E seu guarda-chuva ficou.
  Seu corpo entrou num reviravolta de sentimentos, que era difícil explicar qual seria o seu próximo passo. Era difícil para ela continuar, mas doeria muito mais vê-la partindo sem ao menos tentar. Seu estômago parecia se preparar para uma tempestade e todas as suas borboletas pareciam querer voar pela sua garganta, suas pernas não aguentavam mais aquele flagelo entre as expectativas que sempre pareciam lhe vãs e a esperança que começava a gritar num peito amortecido.
  No primeiro momento em que parou de frente a seu destino, não teve coragem de seguir com o que lhe era dado, sentou diante dele, no meio fio, e esperou a chuva lavar o pouco da alma que poderia alcançar. Não havia uma palavra vindo dela, só a tempestade que se aproximava. Havia silêncio em tudo e em cada movimento. Não havia como negar que o passo deveria ser feito, mas não podiam proibi-la de avançar a seu tempo. Dançava com o monstro dentro de seus medos.
  Quando não havia mais o que fazer, quando lhe foi tirado a força a esperança falha e cega, ela entrou. Ela buscava o inesperado de dentro de seu coração, agora sem salvação. Um coração que começava a se soltar de um peito enraizado. Quando abriu a porta com dificuldade se deparou com um cômodo vazio, a não ser por uma pequena caixa. Trancou a porta, vagou pelos outros cômodos a procura vã de alguma outra explicação mas nada achou. Sentou-se de frente a caixa e apenas a ouviu, por momentos a garota parava sua respiração apenas para tentar ouvir mais claramente o que poderia ouvir. Ela não precisava abrir, enquanto a caixa ainda fizesse barulho, ela saberia como reagir. Enquanto a caixa ecoa-se em sua existência haveria explicação para tal ato. Então de dentro de sua bolsa, tirou outra caixa como a que encontrara, colocava o que a ela até tão pouco tempo pertencia e depositou com certa relutância em ferir-la.
  Tirando seu casaco num só movimento, envolveu as duas e correu. Correu como se fosse a primeira vez que senti-se seu peito tão leve e sem preocupações. Buscou o caminho de volta e enterrou-os, de forma que ninguém além dela poderiam encontrá-los, e decidiu que os manteria assim, até que não sentisse mais nenhuma das duas caixas oscilando.