Suas pernas cruzadas posicionavam-se em cima da mesa, a caixa de cigarros ainda estava na metade mas o vinho já havia acabado. Olhava janela a fora, uma escuridão pouca, uma luminosidade baixa, um silêncio constrangedor. Tão constrangedor que as vezes sentia a necessidade de cobrir a visão da rua e evitar que vissem sua maquiagem borrada pelas horas.
O tempo não passava, as páginas corriam e a luz era pouca.
Aquilo não estava ajudando, levantou, apagou o cigarro e foi até a cozinha. E olhou. Olhou para fora e não viu nada. O quintal, estava um breu, nada se via, ouvia, lembrava. Mas o coração ainda batia apertado.
Mesmo de olhos fechados o corpo doía. A mente latejava. E a respiração corria devagar.
Mas sabia que nada do que sentia ou um dia viria a sentir iria durar ou ser como foi um dia. O tempo não curava, escondia.
Então, ela inteira se despia em carne, ela inteira se vestia de dor e saía. Saía do que poderia não ser e deixava. Deixava-se ser com o momento e ardia. Ardia como o fogo. Fogo que corre em silêncio por dentro do corpo. Corpo que era marcado pelo tempo. Um tempo que não curava. Uma cura viciada.
Sabia a doçura de não ser, mas o não ser era pouco. Um sentimento limitado, preso por amarras que não eram doces, eram amargas e confusas. Um sentimento que lhe dava a sensação de limite perdido, algo que só ela sabia ser e ter.
Um monstro que se alimentava das dores.
Era isso então? Detinha-se nas ferida e uma atrás da outra queria se sentir daquele jeito de novo. Um corpo pouco altruísta que detinha-se na dor. Um corpo viciado na doçura de não ser e sofrer, dentro de um coração vermelho sangue incapaz de distinguir o que pode ser seu do que pode ser meu. Um todo que engloba o mundo com a tentativa de afastar o que ainda pode ser bom e doer. Uma dor que lateja no corpo mas que não se pode sentir, que não se pode parar. Como o relógio que insiste em girar. Como uma escolha que insiste em lhe oferecer um caminho.
Um rio que não encontra caminho.
