Há quem seja capaz de soltar sem dores aquele que ama. Há quem prefira segurar até o ultimo segundo. Há quem nunca tentou. Laura era nova, não sabia o que era amor, não sabia o que era segurar a mão daquele que ama com força e depois soltar com mais força ainda. Não sabia que o mundo era redondo e girava todos os dias de um jeito que não nos deixa mais tontos do que já somos. Não sabia de onde os bebês vinham. Não sabia como era um pé de abacaxi, muito menos de laranja. Mas o mar já havia visto, azul, grande, gelado e assustador.
Laura era assim, naturalmente pura. Educadamente egoísta. E gostava - até aonde podia entender de gostar - de ser assim. Laura era assim. Quando resolveram apresentar o pé de laranja e de abacaxi a Laura ela se assustou, correu, chorou, naturalmente assustada e educadamente interessada. Laura era assim. Sua mãe a colocou no melhor vestido florido, com seu melhor sapato, com seu melhor chapéu, com a sua melhor forma de poder ser apresentada. A mãe e sua melhor boneca.
O dia era cheio. Cheio de Sol, de azul, de verde, de barulhos, de mosquitos, de barulhos, de verde, de azul, cheio de Sol. Laura era naturalmente só sorrisos e educadamente devotada a tudo de novo que via. Até que quando ficou sozinha se viu rodeada de solidão, cheia de verde, de azul, de Sol, de barulhos, de silêncio. Foi a primeira vez que sentia a mão forte se soltar, entre ela e sua mãe. Laura correu feliz, cheia de angustia natural e liberdade educada. Laura era assim.
Mas conforme seu primeiro momento de liberdade passava, sua curiosidade ia ficando mais aguçada, mais profunda, mais densa. A naturalidade feminina. Laura era assim. A situação a fazia assim. A liberdade verde a fazia assim. Exigia que se fosse assim. Laura em sua atemporalidade infantil buscou cada vez mais pelo desconhecido e achou seu primeiro amor.
Seu amor foi infantil, foi pequeno, cabia na mão, era puro como ela. Naturalmente sozinho. Naturalmente assustado. Era um amor inexplicável a pequenos olhos. Ela o segurava o mais forte que podia com medo de matar o delicado passarinho. Pássaro que ela não sabia o nome e logo foi colocando um apelido. Laura era assim. No instante que o segurava, se perguntava o que faria com ele e dentro de si dois caminhos se abriram. Laura poderia tomá-lo para si e ele seria cuidado e amado todos os dias ou abriria a mão com mais força do que fechou e o deixaria escapar? Aquela dualidade sem nome a dominava, como um cabo de força não sabia o que pendia. Laura não era assim. Por vários minutos, ainda com o pássaro preso por entre suas mãos ela corria pelo campo. Ele era um amigo, um confidente, um pedaço de liberdade entre as mãos. Laura era assim, naturalmente gananciosa. Educadamente feminina.
Laura por instantes parava, olhava, entreabria as mãos, dava um sorriso generoso, sussurrava algo e logo se colocava a correr por entre aquele campo. O pobre pássaro nada fazia, não poderia fazer nada. Apenas se fazia presente no silêncio. Um silêncio bem compartilhado, um silêncio excludente que fazia Laura escolher se o libertava ou não. Um silêncio que dilacerava sua liberdade compartilhada. Quando Laura cansou de correr pelos campos foi se aproximando da casa aonde sua mãe estava, olhou para o pequeno amigo indefeso e julgou que era uma das maiores pessoas da terra, pois tinha uma vida em suas mãos - mas quantas vidas nós temos e deixamos escapar sem ao menos nos questionar os dois lados da moeda? Laura era diminuta ainda em vários aspectos. Mas sabia que aquilo entre ela e o pequeno em suas mãos não seria para sempre. Sabia que o amor dela era muito para ele e o dele, pouco para o dela. A menina, quem me dera você não saber o que é amor. Quem me dera você não precisar abrir a mão com mais força do que teve de fechar. Ela beijou o bico do canário, lhe deu adeus, o segurou por mais alguns segundos por entre seus dedos e deixou que o que tinha escapasse pelo vão de sua fragilidade naturalmente infantil. Ele voou, sem olhar para trás, Laura ficou ali naturalmente pura, educadamente egoísta. Como se tudo fosse apenas uma lembrança do irreal.
Contrastes imperfeitos
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
Seu Antônio
Todos os dias, as 7
horas da manhã em ponto, ele acordava. No inverno ou no verão. Já
passava de um costume, não dormia depois daquele horário, era a
idade. Tinha 63 anos, negro, órfão de pais, viúvo de esposa,
sozinho no mundo. Vivia numa casa pequena de aluguel, 150 por mês,
no bairro alto. Era o que dava para pagar com o salário mínimo que
recebia. A casa tinha um quarto, um banheiro e uma cozinha junto com
a sala, era simples, sem muitos móveis, com muita sujeira. Não
recebia visitas. Se absterá do mundo, se absterá das pessoas. Mas
gostava de observar seus trejeitos.
Ele levantava às 7
horas, se vestia conforme o clima. Se o calcanhar, quebrado quando
jovem, doesse iria chover. Se acordasse com dor nas juntas, era frio.
Mas se a garganta estava seca, era sinal de sol. Ia até a padaria,
comprava três pães. Ele não tinha mais emprego, era velho,
semi-analfabeto e os dias em que tinha alguma serventia nesse mundo
já estavam para trás a muito tempo. Passava margarina, tomava um
gole de café preto sem açúcar e imaginava que a vida poderia ter
sido diferente se ele tivesse feito diferente.
Às 7 horas, Seu
Antônio já sabia seu caminho todos os dias. Era um romântico ainda
incorrigível, todos os dias depositava uma flor, que ele mesmo
colhia em seu pequeno quintal, no túmulo da única mulher que
aprendeu a amar. Passava um tempo que nunca parecia o suficiente. As
vezes por horas, contando todos os mínimos detalhes de seu dia
silencioso. Em outras, inventava histórias por se achar
desinteressante depois de todos esses anos. E por vezes, depois de
analisar o que fazia, se sentia bobo e louco por conversar com a
grama, as pedras e o vento e ia embora antes que cinco minutos se
completassem.
Ele era feliz, não
podia se negar. Mas sabia que dessa felicidade nem tudo era sorrisos.
Antônio, antes de aceitar a vida que mais uma vez era lhe imposta a
dez anos atrás, sofria por não entender porque precisava estar
sozinho de todos, porque mesmo depois de tantos anos trabalhando
naquela empresa fora demitido, não entendia porque foi deixado
sozinho aos 14 anos e depois aos 53 anos. Não entendia porque da
necessidade da vida não lhe dar a oportunidade de ter com quem
conversar.
Antônio gostava de ir
ao terminal do bairro, gostava de se sentar ao banco e ver as pessoas
passando, cada uma em seu próprio tempo, cada uma em seu próprio
momento. Ele aprendeu que ficando ali, quietinho, as pessoas em algum
momento iriam notá-lo. As vezes demorava para conseguir algumas
palavras, em outras ele nem precisava se esforçar.
De tanto ir e apenas
ficar lá sentado, os funcionários nem cobravam mais dele a
passagem. Apesar desses gestos, desses contatos, poucos mexiam com
nosso velho Antônio e muitas vezes os funcionários o pegavam
cabisbaixo e sem vontade de conversar. Ele sempre variava as estadas
no terminal, nunca eram horários certos ou dias. Por mais triste que
esteja ou frio, ele permanecia. Talvez por sentir que esse era um dos
poucos momentos que ainda se sentia humano. Talvez por sentir que
aquele era o único momento que não se sentia sozinho.
Antônio já não
sonhava mais em acordar com um sorriso nos lábios, mas queria apenas
poder dormir com um.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
A fuga de Lili
São oito páginas no word e três anos de blog :)
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Toda mudança nos impõe buscas sobre o que queremos ou
o que somos realmente. A minha, entretanto, não teve nada de muito
significativo. Apenas me mudei. Nem todos precisam de uma desculpa
pessoal para mudanças. A muito cheguei à conclusão de que mudanças
só são difíceis às pessoas que buscam se prender ao passado e a
conceitos que julgam certos. Eu não possuía conceitos e ainda
acredito não os possuir. Eles foram me tirados, um a um, por causas
que vocês julgam como regras naturais.
Em um verão de 2004, chovia muito em uma cidade que a
principio não era meu ponto final, mas que favorecia aos
desconhecidos, um local perfeito de silêncio pessoal. O povo, como é
de se imaginar em uma cidade pequena, era calado. A minha chegada
atiçou olhares, assim como algumas línguas, afinal, em pleno século
XXI, o caminho era exatamente outro, principalmente para uma garota
tão nova e sozinha.
A decisão de ficar por aquela cidade foi mais por
conveniência do que por interesse. Acabei achando uma casa com um
preço menor do que imaginei. Para quem nunca foi ao interior, acha
que é como viver num filme de interior hollywoodiano americano, mas
não, a vida é bem mais pacata do que você imagina. O tempo passa
mais devagar do que pode-se aceitar e apressar seus afazeres só faz
você parar em sua varanda por um tempo maior para poder fumar e ver
quase ninguém andando pela rua. Você aprende a gostar da rotina.
Em pouco tempo, fiz amizade com as vizinhas e algumas
meninas da minha idade e logo me encaixei de forma mais interiorana e
consegui um emprego de meio período em um supermercado para poder
sustentar, ao menos, os meus dois companheiros: um gato velho e
malhado e o meu vicio, o cigarro.
No
outono e inverno, chovia quase todos os dias e fazia frio sempre a
noite. Em seis meses me acostumei e já nem ligava. Nesse meio tempo,
eu passava quase todas minhas tardes livres enfurnada em livros e a
noite com minhas novas amigas no único bar que fechava mais tarde,
22h30. Essa rotina permanecia pela primavera e só se quebrava no
verão. Eu esperava pelo verão para explorar o que a cidade me
escondia. E como num filme, numa manhã, me arrumando para ir ao
trabalho, o sol deu as caras depois de tanto tempo. Foi como se
tivesse nevado, haviam crianças a correr pela rua gritando de
alegria, as mulheres colocavam a roupa lavada nos varais do quintal.
Foi a primeira vez que a cidade se abriu para mim. Eu sorria.
Por finais de semanas, corríamos entre florestas,
caçávamos cachoeiras e aprendíamos a nos esconder dos pernilongos
que corriam as nossas casas no final dos dias. Era como se tivéssemos
em outra cidade.
Mas assim como o verão trouxe o sol, trouxe novos
forasteiros à cidade. Não chegaram juntos e nem na mesma época.
Mas o primeiro veio no segundo mês do verão e se mudou para uma
casa próxima da minha e, desta vez sendo parte da cidade, fui
inserida nos rumores e fofocas, que cercavam meu novo vizinho. Mas
existe um preço a se pagar ao adentrar esse mundo, tive de contar
minha história para conhecer novas e notei que deveria ser cautelosa
em revelar meu passado, então eu contei.
Na
época, eu possuía 21
anos e estava noiva
do meu primeiro namorado,
depois de 5 anos
namorando e 2 anos
vivendo juntos. Meus pais
eu já não tinha.
Eles haviam morrido quando
eu tinha 18 anos,
em um acidente de
carro com um ônibus
na autoestrada. Eu era
a mais velha, tendo
uma irmã 10 anos
mais nova que sumiu
no dia em que
noivei e nunca mais
foi encontrada. Minha vida,
até aquela época, tinha
sido um mar de
infortúnio que só mudou
com o noivado. Ambos
estudávamos medicina na
universidade federal do
estado e orgulhávamos
parentes e amigos. Porém,
um dia meu noivo
enlouqueceu e a demência
o
roubou de mim. Eu acabei largando a medicina no último ano para nunca mais voltar. Vendi tudo e vim me refugiar em outra cidade, construindo um novo futuro. Foram 4 anos entre disputas judiciais por bens materiais e disputas pessoas minhas se deveria ou não partir.
roubou de mim. Eu acabei largando a medicina no último ano para nunca mais voltar. Vendi tudo e vim me refugiar em outra cidade, construindo um novo futuro. Foram 4 anos entre disputas judiciais por bens materiais e disputas pessoas minhas se deveria ou não partir.
Naquele momento, minhas amigas entenderam o meu
constante medo em me relacionar e criar laços. Mas havia alguma
coisa neste novo integrante da cidade que eu só havia ouvido falar.
Ele era três anos mais velho do que eu. Médico, veio a cidade por
conta de um concurso publico – eu me perguntava quem conseguia
informações assim rápidas. Era solteiro, havia tido uma noiva que
morreu por lepra. Ele parecia ter roubado minhas desculpas, ou eu
roubei as dele inconscientemente? Sabia se também que havia trazido
sua mãe para a cidade, pois ela necessitava de cuidados especiais
com a saúde. Mesmo vivendo aqui, ele trabalhava na cidade mais
próxima, diziam que era o melhor a se fazer quando se temia ser o
único médico geral. Por conta disso, mal o viam. Saia cedo por
volta das cinco da manhã e chegava quando a Lua já batia em nossas
janelas. Era um fantasma em carne e osso vestido de branco.
Levou muito tempo até que conseguisse um contato
visual com ele. Aconteceu quando o outono retornava e começava a
expulsar o calor do verão, fazendo todas as folhas caírem e
colorirem o chão. Eu estava prestes a ficar mais velha e havíamos
decidido dar uma festa na minha casa entre os pés de Ipê que
coloriam o chão de amarelo e rosa. Como foi combinado, eu dava a
comida e minhas amigas trariam os convidados. Naquela noite sem
saber, conheceria Maurício.
Dentro de um vestido florido e com um sorriso no rosto,
ia cumprimentando meus convidados um por um, a música dava um toque
amistoso aquele encontro. Quando ele entrou, ainda vestido de branco,
sorriu e tirou de suas costas um buquê de cravos vermelhos.
Felicitando-me e tentando amenizar a estranheza de aparecer ali.
Desculpe-me vir assim. Deixe me apresentar, sou
Maurício, seu novo vizinho. Desculpe pelas flores. Quando soube que
a festa na verdade era seu aniversário, tratei de matar algumas
flores da minha mãe.
Eu sorri, não havia o que dizer, apenas olhei pro lado
e vi que minhas amigas sorriam e, naquele momento, entendi o
propósito das flores.
- Não tem como eu lhe garantir que elas continuarão
vivas por muito mais tempo, Maurício – sorri. Mas farei o
possível. Aliás, me desculpe. Lilian, meu nome é Lilian.
Sorrimos de um jeito constrangedor e eu me afastei para
colocar as flores num vaso quando sinto que Samanta corre em minha
direção, com um sorriso nos olhos, dizendo que aquela era a
surpresa da noite e, sem lhe dar muita atenção, digo de forma
apática minha falta de interesse.
Por toda noite, conversei com os convidados sobre
coisas cotidianas, como era o certo a fazer e deixei o esplêndido
convidado com minhas amigas. Era visível que havia mais interesse
partido do lado delas para com ele do que meu. Não seria ali que nos
envolveríamos, diante de tantos olhos. Naquela noite quente de
sábado, não dormi. Tive como companheiro o meu vicio e um livro na
varanda da minha casa. E como esperava, passei mais tempo olhando o
vazio da rua iluminada do que as páginas do meu livro. Quando o
relógio marcou exatas duas horas da manhã, um vulto chamou minha
atenção na rua. Mauricio saia de casa e caminhava atravessando seu
quintal em direção a minha casa.
- Não consegui dormir também - Sorriu e parou diante
da varanda.
- Não, não é todo dia que conseguimos uma noite
dessas para esses lados - Retribui o sorriso - Não quer entrar antes
que os pernilongos te comam vivo?
Ele
entrou sem muito se intimidar, sentou-se numa cadeira ao meu lado, me
olhou por
alguns segundos e seguiu meu olhar para a rua.
alguns segundos e seguiu meu olhar para a rua.
- Sabe - disse, tentando começar um diálogo - Estava
em casa fazendo exatamente isso que você está fazendo. - Eu o olhei
e sorri, ele retribui.
- Gosta de passar sua madrugada olhando o nada e
sentindo o silêncio te rodear?
- Não exatamente - ele afirmou - Gosto de pensar na
vida, mas hoje quando te vi aqui sozinha, fiquei imaginando o que
você pensava tanto. Acho que todas as minhas teorias acabaram de ir
embora. - Silenciou.
Ficamos olhando a rua por um tempo que o relógio
esqueceu de contar e quando me voltei a ele, vi que ele já havia
buscado meu rosto a um tempo e disse:
- Cansei de pensar sobre o mundo quando vejo que o mundo
já se esqueceu de mim, Maurício. Resolvi que é hora de deixá-lo
de lado e ver como as coisas saem sem ele.
- Você fuma há muito tempo?
- Só quando estou sozinha - respondi.
- A quanto tempo você está aqui sozinha?
- Fumo a cinco anos, mas aqui estou a um pouco menos de
um ano.
- Posso ser petulante e saber o que houve com você?
Suas amigas acabaram comentando por cima sobre sua história e eu
acabei ouvindo.
Olhei dentro do fundo de seus olhos e vi o quão
desesperados eles eram, ele estava desesperado por um refúgio.
- Aconteceram-me fatalidades quando me preocupei em
olhar o mundo e só. Sobre esses comentários, você vai ouvir
vários. Não apenas sobre mim, mas sobre todos. Não dê ouvidos.
De
longe, vi um animal correndo. Era meu velho gato, Ámon,
provavelmente fugindo de uma de suas artes e se escondendo no meu
colo. Era hora de se despedir antes que eu
acabasse me envolvendo mais com Maurício e voltar a ser noticia na cidade. Despedimos-nos com um aperto de mão e tentei dormir, mesmo sabendo que seria em vão.
acabasse me envolvendo mais com Maurício e voltar a ser noticia na cidade. Despedimos-nos com um aperto de mão e tentei dormir, mesmo sabendo que seria em vão.
Os
dias voltaram a ser os mesmos na segunda-feira e a rotina me abraçava
novamente. Mas quando os finais de semana chegaram, um novo membro
participava de nossas aventuras interioranas e me rendi. Rendi-me a
Maurício cinco semanas depois do meu aniversário.
O
frio veio nos fazer uma visita antes do tempo naquele fim de semana e
resolvi me arriscar a ficar na varanda. Não havíamos feito nada
durante o dia a não ser ficarmos deitados com cobertas, vendo filmes
e rindo do que a tevê nos proporcionava. Maurício se deitou ao meu
lado e buscou minha mão escondido de todos, eu deixei. No final da
tarde quando todos se despediam, Maurício sussurrou algo em minha
orelha que não consegui entender e foi embora. Todos viam o
interesse cego dele sobre mim, mas eu não ouvia comentários sobre,
talvez me resolvessem poupar. Mas naquela noite, enquanto tentava me
ajeitar à coberta e tomar meu café, ele apareceu correndo e entrou
varanda a dentro, quase arrebentando a tela de proteção.
Naquela
noite, Maurício não foi dormir em casa. Sem se preocupar se
seriamos vigiados ou criticados, ele me arrancou daquela cadeira fria
e me envolveu em seus braços como se eu acabasse de ser resgatada de
um trágico acidente. Envolta em seus braços em mais nada era capaz
de pensar, ele acabara de me anestesiar. Naquela noite, percebi que
Maurício não pedia licença, ele simplesmente fazia. Os pudores de
suas mãos parecem ter sumido e substituídos pelo desejo de me
possuir. Com uma mão me ergueu e com a outra abria espaço pela
casa, até encontrar minha cama, aonde foi exatamente que me soltou e
ali mesmo, ele traçou cada caminho sem pudor pelo meu corpo. Nossas
roupas voaram fazendo com que nossa pele quente se encontrasse.
Dividíamos ali um segredo silencioso, entre olhares, beijos e suor.
Consumimos o próprio silêncio e quebramos as barreiras que palavras
e os corpos proporcionavam. Naquela noite e por várias outras, nos
pertenceríamos em segredo. Ele fugiu pela escuridão antes que
alguém o notasse e eu dormi naquela noite como a muito não dormia.
Naquela semana, não fumei.
Demorou
um tempo para que conseguíssemos nos ver e pensar nele era fazer dos
meus dias, dias perdidos. Nós estávamos perdidos e quase
todas as minhas noites possuíam um nome. Passamos a primavera apenas
nos revelando a Lua. Éramos amantes que sobreviviam sobre um
segredo.
Mas quando as folhas secas começaram a deixar as
árvores nuas e sem pudor, fomos obrigados a dar um passo a frente ao
que tínhamos. Dávamos um passo a nossa confiança de se confessar.
Não nos expomos de maneira direta, mas fomos passo a passo numa
etapa que se chamava comprometimento, mas ele se anulava a cada passo
novo que percorríamos. Talvez a exposição que sofríamos, deixava
aquele gosto de pressão que, a momentos anteriores, não tínhamos e
meu companheiro se afastava.
A
chuva e o frio voltaram e sofríamos como se fosse a primeira vez que
a temperatura caía. Todos voltaram a se recolher e a cidade
fechou-se em si, como no dia que cheguei. A chuva não deu trégua
por semanas, choveu por quase um mês e quando o céu nos deu um dia
de trégua, Dona Glória morreu, mãe de Maurício. Foi algo singelo,
calado, ninguém a conhecia de vista, alguns até achavam rumor a
existência desta pobre senhora. Na noite do enterro, soube que
aquele era o dia de aniversário de Maurício. Por dias ele se isolou
em sua casa se desfazendo dos pertences da mãe e eu era incumbida de
sumir com as coisas antes que ele se arrependesse, não podia ficar
nem um minuto a mais. Mas mesmo depois desses dias isolados, Mauricio
parecia ter mudado, ele relutava em sair, passar um tempo comigo ou
com as pessoas que tinha contato. No hospital, havia sido afastado
por agir de forma errada na mesa de cirurgia. Quando me perguntavam
sobre ele, nem eu sabia mentir.
Seus gostos começavam a me assustar. Ele passava dias
recluso em outra cidade e voltava. Nunca me falava aonde ou o que
fazia. Levava dias, às vezes semanas, e nos dias que ficava pela
cidade, ficava em casa com todas as janelas e portas trancadas.
Aquelas escolhas dele me davam a sensação de voltar a atitudes que
havia prometido ter deixado para trás nesta nova vida. Mas busquei
deixar que a vida dele não interferisse a minha e fiz do cigarro
minha melhor companhia novamente. Não busquei estar com ele mais,
não busquei fazer parte das escolhas dele. Por dias, tentei me
enganar, esperando ele na varanda. Quando completou um mês de sua
completa reclusão, ouvi os falatórios de que ele estava arrumando
as coisas para se mudar, mais uma vez. Como mal parava em casa, fui a
sua casa me despedir e encontrei um mundo completamente diferente do
que entrei um dia. Ele havia transformado a casa em uma sala de
anatomia do século 18. e senti sufocada, haviam muitos animais
empalhados, o cheiro de formol corria por todos os cômodos. Órgãos
que eu não sabia dizer de onde haviam saído.
Saí
da casa de Maurício em pânico total. Corri para casa e dei de cara
com ele, sentado em minha varanda. Ele vinha se despedir e dizer que
sempre que possível estaria aqui para me ver e cuidar da casa da
qual dizia ter criado laços. Passamos mais alguns minutos
conversando sobre a mudança e o trabalho que tudo isso dá, quando
ele se foi. Esperei duas semanas, e parti para outra cidade. Era hora
de ir finalmente, era o final do inverno de 2006.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
O nascimento das nuvens
Quando saia de casa para ir a
creche, ele viu a neblina e, pela primeira vez, teve consciência do
que via. Sua mãe viu tamanha empolgação escrita em seu sorriso e
pelo desejo de sair correndo pelo quintal que, por alguns momentos,
deixou-o correr entre a névoa. Quando ele voltou, calmamente
abaixou-se até ficar em sua altura e perguntou.
- Filho você sabe como as nuvens
nasceram?
Ele, ainda respirando fundo pela
correria, apenas negou com a cabeça. Ela então sentou-se no chão e
o puxou para perto dela, demonstrando que então contaria.
- As nuvens nasceram há muito
tempo atrás, quando o mundo não existia do jeito que conhecemos
hoje. Antes de nós humanos cuidarmos desse pequeno planeta, as
Estrelas faziam isso pela gente e fizeram por um tempo até que
tivéssemos consciência dos nossos atos. A sociedade das Estrelas
sempre foi muito organizada. Era o Sol a estrela maior que cuidava de
tudo e buscava dar a todas elas total escolha do seu futuro. Elas,
porém, só podiam escolher dois caminhos, ou continuavam estrelas em
um lugar mais distante para continuar sua missão e legado, ou viriam
a terra e viveriam nela como pudessem como pessoas.
- Mas entre as Estrelinhas,
existia uma em especial que não tinha ideia do que gostaria de ser
quando chegasse a hora. Ela perguntava para todas as outras amigas
dela, mas nenhuma entendia suas dúvidas e mais encucada ela ficava.
Até que o seu dia chegou e ela falou para o Sol que não sabia o que
queria e que gostaria de um tempo para pensar. O Sol, por sua vez,
propôs a pequena Estrela que ficasse um tempo em cada uma e, no
final, ela faria sua escolha.
- De comum acordo com o Sol, ela
foi. A primeira escolha seria ser um humano. Isso foi algo que
maravilhou a pequena Estrela, não só por poder se locomover
facilmente, mas por comer e buscar por diferentes comidas e poder ver
as mudanças acontecerem de perto de algo que eles trilharam para
aquele lugar. Mas, com a duvida ainda dentro dela, toda noite ela
olhava para o céu e sentia falta de suas amigas, do aconchego de seu
calor. Logo, ela pediu para o Sol para que ele desse a oportunidade
de ver como seria sua segunda escolha.
- Quando a Estrelinha acordou,
viu que se encontrava no espaço, sendo o que sempre foi. Mas ela era
maior, bem maior do que estava acostumada. Ela viu que estava cercada
de novas amigas, possuía um brilho diferente e que estava distante
da Terra. Isso a magoou muito, pois ela sentia falta de poder
observar as coisas que aconteciam por lá, principalmente quando se
lembrava de como era ser um humano. Quando passou o tempo, a
Estrelinha voltou a falar com o Sol e este a pediu que decidisse, mas
mesmo assim ela ainda não conseguia tomar uma decisão, sua energia
estava dividida nos dois lados. O Sol então pediu que ela esperasse
mais um dia terreno, pois ele tinha um novo plano para a pequena.
- Quando o Sol a chamou, ele lhe
explicou que aquilo seria apenas um experimento e que talvez ela
ainda tivesse de escolher entre sua velhas opções, mas que faria
mesmo assim. Explicou que ela não ficaria nem longe dos humanos e
nem longe do céu e que, a partir daquele momento, ela cuidaria dos
humanos mais de perto e daria a eles algo em troca de seu amor e algo
a temer quando eles errassem em sua evolução, Ela se tornaria a
primeira de todas e a responsável pela organização. A partir
daquele momento, ela se tornou uma nuvem.
- Assim ela viveria entre os dois
limiares, não se afastaria da terra nem dos céus.
terça-feira, 31 de julho de 2012
Contrastes imperfeitos
Para a decepção alheia, ou não. É o Transbordar, reescrito. Eu fiquei incomodada com ele apesar de ter postado e quando lia, me vinha coisas que não estavam ali. Agora, acredito não faltar nada.
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Era uma chuva que não duraria. E
com sua pressa cotidiana ela por pouco não esqueceu seu coração
que nos últimos tempos pesava como se uma outra pessoa agora
estivesse dentro dela. Pegou seu coração, dividiu o peso entre os
braços e antes que esquecesse pegou o guarda-chuva. Um bônus para
que ela parecesse atrapalhada entre bolsa, livro e roupas pesadas.
Correu, correu como se fosse a única coisa que ela pudesse fazer
naquele momento. Ela possuía muitas duvidas e muitas destas ela
tentou não carregar consigo, mais estavam presas a seu coração e
na distração de seu caminho tortuoso acabou fazendo o caminho mais
longo.
O ônibus estava
cheio, abafado e embaçado. Não havia escolha a muitas pessoas. Era
como prender ratos sem nenhuma escolha de fuga da realidade e ver
seus monstros saírem para brincar. Você nessas horas sempre tem
duas escolhas: ou brinca com sua fuga doméstica aquela que você ou
trouxe de casa ou que inventa na hora para se distrair, ou então
brinca com os monstros dos outros. Ela por sua vez, preferiu ali
evitar maior contato do que já havia tido em todos os seus dias e
fingia ler algo. Olhos fixos ora no livro, ora no caminho que tomava.
Ela gostava de
afogar alguns pensamentos na sua própria duvida de ser, fugir deles
era um prazer que poucos podiam dá-la. E de lá, se manter no
silêncio de um domingo frio amanhecendo. Até que eles acordassem,
mesmo que tardios, maduros. E quando viu, brincava com seus demônios
pessoais. E de tanto brincar, perdeu o seu caminho e teve de refazer
uma boa parte.
Ela não queria
lembrar, ela não queria afogar nada, ela não queria amadurecer
pensamentos que ainda preferiam estar se modificando e criando outras
raízes. Mais escolhas eram feitas, as vezes, sem sua permissão
eminente. Apenas fechou os olhos e aceitou o que lhe era dado. Deus
sempre soube escrever de forma reta em linhas invisíveis a qualquer
um.
Na hora de
descer do ônibus, a primeira escolha foi feita. Deveria partir sem
um item dos quais carregava. Não por que o mundo a pediu isso, mas
por que sua mente se afogava em duvidas que surgiam e aumentavam a
cada aproximar do destino e de tão pesado o seu maior demônio tomou
conta do que poderia se desenrolar que ela apenas partiu. E seu
guarda-chuva ficou.
Seu corpo entrou num reviravolta de sentimentos,
que era difícil explicar qual seria o seu próximo passo. Era
difícil para ela continuar, mas doeria muito mais vê-la partindo
sem ao menos tentar. Seu estômago parecia se preparar para uma
tempestade e todas as suas borboletas pareciam querer voar pela sua
garganta, suas pernas não aguentavam mais aquele flagelo entre as
expectativas que sempre pareciam lhe vãs e a esperança que
começava a gritar num peito amortecido.
No
primeiro momento em que parou de frente a seu destino, não teve
coragem de seguir com o que lhe era dado, sentou diante dele, no meio
fio, e esperou a chuva lavar o pouco da alma que poderia alcançar.
Não havia uma palavra vindo dela, só a tempestade que se
aproximava. Havia silêncio em tudo e em cada movimento. Não havia
como negar que o passo deveria ser feito, mas não podiam proibi-la
de avançar a seu tempo. Dançava com o monstro dentro de seus medos.
Quando não
havia mais o que fazer, quando lhe foi tirado a força a esperança
falha e cega, ela entrou. Ela buscava o inesperado de dentro de seu
coração, agora sem salvação. Um coração que começava a se
soltar de um peito enraizado. Quando abriu a porta com dificuldade se
deparou com um cômodo vazio, a não ser por uma pequena caixa.
Trancou a porta, vagou pelos outros cômodos a procura vã de alguma
outra explicação mas nada achou. Sentou-se de frente a caixa e
apenas a ouviu, por momentos a garota parava sua respiração apenas
para tentar ouvir mais claramente o que poderia ouvir. Ela não
precisava abrir, enquanto a caixa ainda fizesse barulho, ela saberia
como reagir. Enquanto a caixa ecoa-se em sua existência haveria
explicação para tal ato. Então de dentro de sua bolsa, tirou outra
caixa como a que encontrara, colocava o que a ela até tão pouco
tempo pertencia e depositou com certa relutância em ferir-la.
Tirando seu
casaco num só movimento, envolveu as duas e correu. Correu como se
fosse a primeira vez que senti-se seu peito tão leve e sem
preocupações. Buscou o caminho de volta e enterrou-os, de forma que
ninguém além dela poderiam encontrá-los, e decidiu que os manteria
assim, até que não sentisse mais nenhuma das duas caixas oscilando.
domingo, 8 de julho de 2012
Transbordar
Era uma chuva que não duraria.
Sua pressa era tanta que por pouco não deixou seu coração em casa e levou apenas a razão e o guarda-chuva consigo. Saiu sem direções pegando o primeiro ônibus que passou no ponto. Era preciso correr contra o tempo antes que ele fizesse isso. Pois sabia que quando o tempo a alcança-se nada mais se poderia fazer nada mais se faria, a não ser pensar. A não ser relembrar.
Ela correu, o dia estava longe de terminar, o primeiro ônibus acabou fazendo o trajeto mais longo e ela não tinha nem seus fones, nem um livro. Maldita pressa. Encostou sua cabeça no vidro gelado e ficou olhando as gotas escorrendo pelo vidro. A chuva encobria toda a visão, estava cada vez mais forte e seus pensamentos cada vez mais longe. E o transito parado. Sua ansiedade e nervosismo era maior a cada minuto parado.
Não havia o que se fazer naquele momento, não há nada que de mim possa mudar mais. Não há nada que eu faça que mude. Não sozinha.. não sozinha..
Seu destino final estava próximo a cada batida de coração, como uma arritmia. Desceu antes. Com o estomago parecendo estar em meio a uma tempestade. O guarda-chuva ficou no ônibus. A chuva estava caindo ainda, mas mais leve e fraca, por um minuto ela procurou um toldo que pudesse se esconder. Mas seguiu rua a baixo entre poças, preocupações e uma ligação não atendida. E outra. E outra. E outra.
Quando chegou finalmente no lugar que dentro de seu coração nunca deveria ter saído - e quando chegou finalmente ao lugar que de dentro de sua razão não deveria voltar. Ela esperou o inesperável. O telefone tocou. A chuva piorou. O frio chegou. O telefone tocou. E outra. E outra...
Ela entrou quando um dos vizinhos distraídos abriu o portão e foi subindo. Com o corpo gelado e as roupas molhadas parecia que a tempestade dentro de seu corpo piorara. O coração não cabia mais dentro do peito e parecia lutar para sair. Deu de cara com uma porta branca entreaberta, uma porta que tantas vezes significou um pedaço de paz num mundo em guerra. Uma sala vazia, uma sala fria, uma sala gelada e em seu centro uma caixa.
Ela não precisava abrir, ela ouvia e sentia o que havia ali. Ela tirou o casaco azul, embrulhou a caixa com cuidado e correu, saiu rua a fora e a tempestade dentro dela finalmente havia transbordado.
Sua pressa era tanta que por pouco não deixou seu coração em casa e levou apenas a razão e o guarda-chuva consigo. Saiu sem direções pegando o primeiro ônibus que passou no ponto. Era preciso correr contra o tempo antes que ele fizesse isso. Pois sabia que quando o tempo a alcança-se nada mais se poderia fazer nada mais se faria, a não ser pensar. A não ser relembrar.
Ela correu, o dia estava longe de terminar, o primeiro ônibus acabou fazendo o trajeto mais longo e ela não tinha nem seus fones, nem um livro. Maldita pressa. Encostou sua cabeça no vidro gelado e ficou olhando as gotas escorrendo pelo vidro. A chuva encobria toda a visão, estava cada vez mais forte e seus pensamentos cada vez mais longe. E o transito parado. Sua ansiedade e nervosismo era maior a cada minuto parado.
Não havia o que se fazer naquele momento, não há nada que de mim possa mudar mais. Não há nada que eu faça que mude. Não sozinha.. não sozinha..
Seu destino final estava próximo a cada batida de coração, como uma arritmia. Desceu antes. Com o estomago parecendo estar em meio a uma tempestade. O guarda-chuva ficou no ônibus. A chuva estava caindo ainda, mas mais leve e fraca, por um minuto ela procurou um toldo que pudesse se esconder. Mas seguiu rua a baixo entre poças, preocupações e uma ligação não atendida. E outra. E outra. E outra.
Quando chegou finalmente no lugar que dentro de seu coração nunca deveria ter saído - e quando chegou finalmente ao lugar que de dentro de sua razão não deveria voltar. Ela esperou o inesperável. O telefone tocou. A chuva piorou. O frio chegou. O telefone tocou. E outra. E outra...
Ela entrou quando um dos vizinhos distraídos abriu o portão e foi subindo. Com o corpo gelado e as roupas molhadas parecia que a tempestade dentro de seu corpo piorara. O coração não cabia mais dentro do peito e parecia lutar para sair. Deu de cara com uma porta branca entreaberta, uma porta que tantas vezes significou um pedaço de paz num mundo em guerra. Uma sala vazia, uma sala fria, uma sala gelada e em seu centro uma caixa.
Ela não precisava abrir, ela ouvia e sentia o que havia ali. Ela tirou o casaco azul, embrulhou a caixa com cuidado e correu, saiu rua a fora e a tempestade dentro dela finalmente havia transbordado.
sábado, 23 de junho de 2012
Senão
Pelo reflexo do vidro ela os via,
sorridentes e distraídos em serem. Serem seres que possuíam sua
liberdade limitada, como nós. Seres sem faces, que se escondem em
dias de chuva. Faces que não se limitam em correr ou gesticular, são
faces que quando se percebe já riram e riem em meio aos seus
segredos. Mas que mesmo sem uma face definida, insistem em ser mais
que você. Corpos indefinidos que, com o Sol, são mais claros e
distintos. Este Sol incide e aquele Vento os dispersa. Uma árvore
que, em seu primeiro momento, existe é formada por diversas partes,
mas quando é observada por outro viés se torna uma coisa só
lutando por existir.
Eu me fazia, no reflexo, existir em
quatro tempos e questionava se meus problemas diminuiriam por isso ou
se minhas dores seriam menores. Desejo passageiro. Que de tão
passageiro me fez distrair naquilo que o reflexo diz ser eu, entre
tantas outras carnes e tantos ossos, aquela sou eu. Mas assim como
eu, o Sol logo partiria e levaria com eles as cores que um dia ele
ofereceu e daria lugar ao cinza, que de opaco não se vangloriaria.
Eu assistia o veneno queimar em mim e
dele criar criaturas sem face, que se limitavam em ser eu. Pedaços
de corpos as vezes indefinidos. Mas como se separar de algo que
sempre foi seu, mas que de alguma forma sempre foi passageiro como um
dia de Sol no inverno? Como ser duas antes que as folhas que aqui
balançam caiam e como se manter a mesma antes que novas tomem conta
desta natureza?
O silêncio que governava aquelas
ideias perde-se quando se ouve o trovão ao longe. E este leva tudo
que estava aqui ao alcance de minhas mãos para um vazio que a muito
se foi, parece. E nem vestígio são vistos.
Como é viver quando se tem segredos
depositados sobre uma fina pele?
No meio reflexo agora só vejo borrões,
borrões que são formados por grossas lágrimas que caem aonde antes
haviam figuras altivas. Borrões entre sombras do passado. E quando
se nota, um rosto sem faces tenta mostrar do que é feito e só te
exige o silêncio para ser, para que ele seja.
Até que ponto somos sombra, borrão e
o corpo que permite essas imagens? Deixe que eu toque o reflexo
borrado por um instante saiba a resposta da pergunta que se instalou
no meu peito em meio a tudo isso. Deixe-me descobrir o que se esconde
por essas certezas incertas de que tanto se clama... De que outra
forma podemos ser se não nos separamos e esperamos pelo próximo
Sol?
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