quinta-feira, 17 de maio de 2012

Morangos.


          Suas pernas cruzadas posicionavam-se em cima da mesa, a caixa de cigarros ainda estava na metade mas o vinho já havia acabado. Olhava janela a fora, uma escuridão pouca, uma luminosidade baixa, um silêncio constrangedor. Tão constrangedor que as vezes sentia a necessidade de cobrir a visão da rua e evitar que vissem sua maquiagem borrada pelas horas.

O tempo não passava, as páginas corriam e a luz era pouca.


          Aquilo não estava ajudando, levantou, apagou o cigarro e foi até a cozinha. E olhou. Olhou para fora e não viu nada. O quintal, estava um breu, nada se via, ouvia, lembrava. Mas o coração ainda batia apertado.

Mesmo de olhos fechados o corpo doía. A mente latejava. E a respiração corria devagar.


           Mas sabia que nada do que sentia ou um dia viria a sentir iria durar ou ser como foi um dia. O tempo não curava, escondia.
          Então, ela inteira se despia em carne, ela inteira se vestia de dor e saía. Saía do que poderia não ser e deixava. Deixava-se ser com o momento e ardia. Ardia como o fogo. Fogo que corre em silêncio por dentro do corpo. Corpo que era marcado pelo tempo. Um tempo que não curava. Uma cura viciada.
           Sabia a doçura de não ser, mas o não ser era pouco. Um sentimento limitado, preso por amarras que não eram doces, eram amargas e confusas. Um sentimento que lhe dava a sensação de limite perdido, algo que só ela sabia ser e ter.

Um monstro que se alimentava das dores.


           Era isso então? Detinha-se nas ferida e uma atrás da outra queria se sentir daquele jeito de novo. Um corpo pouco altruísta que detinha-se na dor. Um corpo viciado na doçura de não ser e sofrer, dentro de um coração vermelho sangue incapaz de distinguir o que pode ser seu do que pode ser meu. Um todo que engloba o mundo com a tentativa de afastar o que ainda pode ser bom e doer. Uma dor que lateja no corpo mas que não se pode sentir, que não se pode parar. Como o relógio que insiste em girar. Como uma escolha que insiste em lhe oferecer um caminho.

Um rio que não encontra caminho.

sábado, 21 de janeiro de 2012

Por dentro do meu estrondar


No período que fiquei perdida e sozinha com circunstâncias e sombras de seres que simplesmente me carregavam por caminhos desconhecidos, tive a impressão que era o passado me carregando. E na verdade o silêncio era quem pesava, fui obrigada a encarar quem eu era, em reflexos que nunca existiram. Fui obrigada a andar em pés que nunca pareciam pertencer a mim. E encarar realidades completamente opostas a face dos sonhos.

Por muitos minutos percorria árvores e me escondia em buracos distintos para fugir do eu, que acreditava estar logo atrás de mim. E como um cachorro que corre atrás de seu rabo, voltei para onde eu nunca deveria ter dado partida. Eu me vi, vi meu reflexo perdido em um outro corpo, como uma sombra que some num sol de meio dia. E como um pedaço meu que nunca me acusaria, eu me vi sem amarras e me vi mais uma vez solta em meio de um lugar qualquer e que nunca mais eu me sentiria presa a nada que se relacionasse a este reflexo desigual. Como um corpo acostumado com a ausência de sentidos. Senti que nada mais me prenderia aquela situação ou ambiente. Mas mesmo que você consiga encarar essa realidades ausente de sentido, nada é tão fácil de se negar e abandonar. Não quando se sabe que aquela sombra lhe pertence assim como sua ausência. Abandonar-se não é fácil.

Por dias, você se leva a acreditar que toda escolha é precitada é fácil, mas começa a notar que essa preferência te faz pegar o caminho do qual você nunca deveria ter saído. Começa a encarar a dor se tornando real em momentos em que você negou todos os avisos. E no meu destino você deveria ter ido quando te deixei ir pela primeira vez, no silêncio da negação. Mas você ficou. E fiz o que você não faria se estivesse no meu lugar, neguei. Deixei o silêncio ser quebrado por um corpo que ainda pulsava dentro. Deixei que seu coração me negasse e não me pregasse mais peças. Cortei seu corpo em pedaços suficientes para que a lembrança se perde-se dentro de mim. Esperei cada membro esfriar a seu modo, para mostrar a verdadeira razão de nos unirmos em um só corpo. Deixei que você me marcasse com seu sangue, a única coisa que realmente mostraria a nobreza de seu eu. E com a água quente, deixei que esta marca fosse levada, enquanto estava de joelhos chorando por duas perdas num mesmo dia. Deixava com que a negação me curasse e me mostrasse outro caminho. Deixei que você me abandonasse de uma forma na qual nunca explicaria, como deveria ser.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Entre algumas tragadas


Os dedos batem sobre a folha de papel como se procurassem acelerar o tempo entre o escritor e a escrita. As palavras não saiam. Era tarde de noite como sempre e a mente não-treinada não conseguia mais reproduzir os sentidos, cores e sabores em palavras. Tudo que transcendia era frio, tolo. Como por no papel meses de sentimentos antes não adestrados? Como transcender sem se perder? Como navegar pelos mares, agora, desconhecidos.
Entre uma tragada e outra do cigarro, ela respirava seus medos e temores ainda crus. Olhava uma janela úmida pelo tempo e tentava colocar tudo o que pensava em algo material como aquele pedaço de madeira e vidro gelado. Olhava dicionários, gramáticas, acendia novos cigarros. Quando a luz do sol comparecer ao encontro dos seus olhos seu tempo terá acabado. Um tempo só seu, que era lhe dado com o escurecer e roubado com o seu oposto.
Mas sobre o que escrever? Corações roubados, feridas curadas, feridas que ainda continuavam expostas, feridas que o tempo esqueceu de cuidar e latejavam em silêncio pelos cantos do coração. Não, era necessário algo novo. Algo que mudasse seu olhar diante faces em branco. Era necessário criar uma nova cidade para que novas histórias se preenchessem. Mas nunca deve se começar pelo “Era uma vez...” ele apenas nega nossos medos e nos transforma no que o mundo do faz-de-conta quer, perfeitos.


Beatriz tinha 12 anos, pobre, chorava pelos cantos buscando uma explicação, - mesmo que pequena e sem muita maturidade; buscava pelo significado de sua situação. Abandonada aos 7 anos em uma casa qualquer. Sozinha por alguém que não tinha condições de lidar com algo tão frágil. A menina corria pelas ruas buscando algo que lhe desse o que de comer. Conhecia as ruas, cantos, lojas melhor que qualquer “homem-de-carro-de-duas-cores”, ou taxi como insistiam que ela falasse.
Por algumas pessoas encontrava a compaixão. Por outras o desprezo. Por outras a luxuria. Beatriz não era má por natureza, buscava apenas o conto do “Era uma vez..”, não por um Príncipe, pois estes não a olhavam. Beatriz era apática. Mas eu queria a ter criado de forma diferente. Queria uma Beatriz de olhos verdes cor de uva, não castanhos sofridos. Queria cabelos com cachos graúdos com cor de mel, não estes cachos destruídos e sujos. Queria tê-la feito com uma pele morena, não tê-la feito com esses traços grossos de sujeira que a rua não deixa apagar.
Beatriz não tinha ódio, era pura no que podia ser. A noite ela havia aprendido - com as mulheres que encontrava pela rua; A noite ela havia aprendido que não condena e sim suporta, então no silêncio profundo da noite ela se fazia apresentar. Quando a noite entrava sem pedir muita licença, Beatriz corria pelas ruas a procura de algum boca-aberta e ali mesmo na rua se saceava. A luz da lua era sua mascara mais frágil e certa, ali na rua ela corria com outras crianças e fazia o trabalho de adultos que se encontravam na mesma situação que ela e sem dó muitas vezes deixavam um prêmio vermelho a correr pelos ladrilhos cinza da calçada. Um liquido vermelho que de significado nenhum lhe tinha, assim como um prêmio sem vencedor. Era apenas a conquista do mais adaptado.
Beatriz crescia assim como sua sede. Notasse que a luz da Lua já não lhe servia de muito e, a falta de nitidez pessoal não lhe permitiram parar. Conseguiu um segundo emprego. Substituíra os horários, de dia satisfazia-se na rua e a noite satisfazia-se entre lençóis 250 fios.


O cigarro aqui continua aceso e sem acesso a minha mente, o que fazer com Beatriz? Mudar seu mundo em segundos com um verdadeiro amor? Matá-la? Sim, matá-la. Matá-la como um prêmio um prêmio a nenhum vencedor.
Mas matá-la aonde, nas ruas, nos lençóis 250 fios? A Beatriz, por que fui te criar? Tormento de minha noite silenciosa e vazia. Tormento de luz, tormento de vicio.


E assim, sem muita classe, sem muita dignidade de manter-se em pé e sem seu próprio proposito, Beatriz morreu sobre uma calçada desigual que buscava intercalar o branco e o preto. Era inicio de um novo dia segurava em mãos um lençol de 250 fios rose, que foi utilizado pra esconder o que o dia não podia revelar, um prêmio que não tinha vencedor, um prêmio que em minutos esfriaria. Uma vida.

(Imagem:http://www.flickr.com/photos/lynhana/2814584054/)

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Introdução?

Sabe aquele papo de livro? Pois então... pra quem ainda não leu.. um pedacinho :)

-------------------------------

Fazia muito frio aquela noite e era a primeira noite do mês em que não chovia. Eu havia resolvido que iria a pé para casa, as ruas eram tranquilas e vazias a essa hora, sem contar que eram a trinta minutos de casa, nada que me incomodasse. Algumas amigas me acompanharam metade do caminho, mas se perderam no por conta do único pub aberto até tarde na cidade. O pub que há meses não frequentava.

Meus fones haviam substituído, sem pensar duas vezes, as vozes de minhas acompanhantes. Eles estavam fazendo parte do que eu era a um bom tempo, me deixam longe de qualquer pensamento incomodo. Mas naquele momento um pensamento havia de alguma forma invadido meus pensamentos ignorando totalmente a musica que tocava. Meus olhos e sentidos estavam sendo aguçados. Tive receio, mas continuei o trajeto, faltavam um pouco mais de 3 ruas e em pouco tempo estaria salva na minha aconchegante sala de estar com meu chocolate quente e meus filmes, pensando que aquilo era a oitava maravilha do mundo.

Por segurança, corri meus olhos pelas ruas, havia um homem parado com um boné branco que começou a vir em minha direção. Eu senti que iria ser abordada, e isso de alguma forma, criou um certo pânico. A respiração acelerou junto com o coração, a mente travou. Em poucos segundos fui jogada ao chão. Por conta do nervosismo já tinha esquecido todas as aulas de defesa pessoal que havia feito. Estava escuro mais percebi que em momento algum o homem quis se esconder de mim, eu havia temido por 8 meses.

No chão, imobilizada senti seu nariz em minha nuca. Nojo. Minha bolsa e meu tênis ficaram pela rua, erguida a força, fui obrigada a andar em direção ao parque da cidade. Minha mente ainda não funcionava pelo pânico. E ele falava coisas sem sentido..”finalmente...” “isso é para você não aprender a fazer isso comigo, sua vadia.. isso mesmo.. uma vadia, é isso que você e todas as outras foram!”. Na hora meu cérebro se conectou, finalmente, ele não poderia ser só um homem de meia idade, no qual os rumores apontavam para uma separação e que a mudança para aquela cidade pequena era apenas uma necessidade de tempo.

Ele tinha horários fixos, tudo para não despertar desconfiança. Quase não nos encontrávamos - o que de certa forma era um alivio - quase não nos encontrávamos, devia ser por que eu fugia daquele olhar que me despia, me causava arrepios ou quando ele parava na entrada de casa quando me via saindo no horário previsto para o trabalho, eu estava certa, havia algo errado com aquele homem certinho. E havia.

Aquele parque era ingrime, lembro de ter caindo inúmeras vezes, havia me cortado e sangrava, ardia. Haviam muitas árvores e o parque terminava em lugar algum, numa floresta. Estava frio, era tarde e ele era o dobro de mim, eu havia me entregado a própria sorte. Ele havia me mandado parar, no meio do nada, no nada. Suas mãos corriam meu corpo ainda vestido e eu entrava em um estado de nojo próprio. Por momentos ainda tentei ser relutante, afastar aquele monstro de mim, mas não adiantava o pânico me deixava mais fraca do que já era.

Quando eu sinto seu peso inteiro sair de cima de mim, eu corri alguns metros sem entender. Parei, e vi o que realmente estava acontecendo, vi que havia mais alguém ali. Meus olhos tentavam identificar os corpos, quando percebi que pessoa no qual eu evitava ver estava ali, tirando o peso de cima de mim e me protegendo. Meus pulmões finalmente respiravam, mas o cheiro associado a minha memoria me enjoava.

Houve barulho, respirações mais aguçadas, socos, meu protetor tinha mais do que porte físico, ele possuía agilidade e era sagas em seus passos.. Até que tiros cruzaram o silêncio. Eu corri dessa vez tentando voltar ao local em que estava.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Meus retalhos

Bom.. o nome acima diz tudo não? Todo um passado não publicado.. mas isso tudo, cada palavra aqui é um experimento não? Vamos tentar, misturar as diferenças.. Eles são antigos.. são desde os primeiros passos até os de semana passada.. são os que eu comecei aqui a escrever e parei aqui... A ideia deles? Nenhuma..

Boa leitura?!

------------------------------------
23/08/2010
Sufoque um coração se abrindo

Uma coisa a declarar.. HIM

------------------------------------
20/11/2010
Rifa-se um coração

é quase meia noite, e eu estou a dias pensando no que colocar aqui. Desisti. Acho que um dia, um dia é necessário eu não pensar em nada e as coisas sairem como devem, sem planejar. Eu tenho pensado em brincar com um poema que parece ser da Clarice Lispector, a muito tempo não tenho agido Claretianamente, eu vou tentar e se vocês estão lendo isso é por que acho decente a ponto de postar. Sim, possuo pelo menos 5 contos nunca publicados, vergonha? Talvez não, quem sabe é somente inacabado ou pessoal de mais.
(Clarice, com a sua licença, peço permissão para me meter em suas escritas.)
---------------------------------------Rifa-se um coração
Rifa-se um coração a moda antiga, um orgão já calejado,

------------------------------------
06/12/2010
Quando pequena costumava brincar na chuva em dias de verão e esperar aquela cólera terrena passar. Em outros tempos nesses dias eu costumava abrir a porta da sacada, sentar no chão, sentir aquele cheiro de terra molhada invadindo meu pulmão e contemplar a água tomando conta de tudo, como se possuísse o indomável.

------------------------------------
20/12/2010
Eu posso te falar dos meus sonhos, dos meus medos, descrever cada lagrima que já derramei.. Mas me perdi nas horas, me perdi nos momentos.. Me perdi no tempo.. Me perdi quando resolvi te dar a Lua. Eu poderia falar do nosso céu que agora escurece lá fora....Por um minuto penso que posso te mostrar minha janela e meus segredos escondidos em cada quina dela, se em troca me dar cada sorriso seu.
Mas olhe, olhe pro céu comigo... A meia hora atras

------------------------------------
23/01/2011
Estou te esperando" -Eu disse - "Eu estou e estarei te esperando nesse parque, naquele mesmo parque, você vai ver e a noite não será mais tão fria."
ruzaram os olhares, deram um beijo de despedida

------------------------------------
07/02/2011
E o sonho se repetiu. Eu viro pro lado e tento mudar de planos, mas quem diz que tudo que fazemos é realmente correto, ou digo... fácil?

------------------------------------
27/02/2011
As decisões são postas a minha frente. Os dedos correm, cada passo dado não se volta. Como acreditar que poderia ser assim. Aponte sua decisão com os seus dedos e quem sabe assim eu veja melhor através de seu próprio espelho.

------------------------------------
31/03/2011
Tudo parecia comum. Ela, 17 anos e resolveu se apresentar a sociedade um pouco mais tarde que o comum. Menina simples, com longos cabelos lisos e castanhos, pelo clara, olhos verdes, 1,65 de altura, com um corpo normal, havia acabado de passar em engenharia civil. Ele, 37 anos, um homem charmoso, visivelmente infeliz e cansado em sua profissão, alcoólatra em finais de semana, nunca se casou e sempre com relacionamentos ocasionais e consensuais. A relação entre eles? Ela uma garota estimulada pela sociedade com sua festa, ele o fotografo de seu primeiro book.

------------------------------------
11/05/2011
- ... Porra, de novo com essa bosta? Já não te disse caralho.. esse cara não presta, NÃO-PRES-TA! Você vai perder mais um vez tempo com outro? Esse canalha é igual todos os outros!
Desligou o telefone, aos prantos antes que falasse mais do que devia de novo. Pegou o elevador e tentou se recompor antes que algum vizinho a visse daquele jeito

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Estrondar (Parte IV - final)

Bom finalmente tomei coragem e terminei com ele! Isso não quer dizer que seja o fim, nunca existe um fim.. Ele é apenas o começo. Boa leitura, caríssimos.


-------------------------------------


Eu sabia do que se tratava aquilo que ele me oferecia, não tinha muita escolha e mesmo que fugisse nós dois sabíamos que eu acabaria voltando, como agora.. Mais cedo ou mais tarde. E sabia também que era melhor começar a me explicar... Não sabia por onde começar e o silêncio parecia mais explicativo que qualquer palavra.

Com calma me ajeitei a alguns passos de distancia dele, assim ambos poderiam ler lábios, olhos e corpo. Busquei não olhar para a comida como um gesto de insatisfação, ele compreendeu e não insistiu. Por hora eu não o fitava, por meses estive do lado de um homem no qual o nosso melhor dialogo era o silêncio. Nada mudaria aquele encontro. Éramos um diamante bruto -Estava presa aquele ponto, isso começava a incomodar, mas tudo deveria ser a seu tempo.

- Você parece bastante machucada. Disse isso enquanto se levantava e tocava meu sangue agora seco em minha roupa suja de barro, não me mexi, ele começava a exigir explicações...

- Você sabe o quanto sou distraída, fora que aquelas cordas me mach.. Lembrei o motivo de tudo aquilo, de toda aquela agonia e me calei.

Ele se posicionou na minha frente, com as mãos calmas buscou retirar o cabelo que impossibilitava de me ver. Abaixei a cabeça. Ele mais uma vez de forma calma, buscou meu queixo erguendo meu rosto. Estava face a face com a saudade.

- Eu não quis te assustar daquela forma, aquele dia, eu apenas quis...

- Não, por favor, não tente se explicar...

Com os olhos desconfiados, ele apenas consentiu.

- Não te machuquei, não é? Eu apenas quis que você confia-se em mim...

Fugi de olhos enganadores, mas continuei com o queixo preso em suas mãos. Ele não sabia como aquelas tentativas de agrado me doíam...

- Machucou, mas nada que se compare com os arranhões adquiridos..

Ele riu, pela primeira vez de uma forma sincera.

- Precisa de cuidados? Sua perna não me parece nada bem.

- Acho que um bom banho já ajudaria. Foram só arranhões, coisa de duas semanas e estou pronta pra voltar pra casa..

- Achei que você já estivesse em casa..

Busquei seus olhos que miravam minha perna e hesitavam tocá-la, compreendi que apesar de todo o seu passado, eu era a primeira que ele não machucaria. Foi minha vez de puxar seu rosto em direção ao meu. E dizer de forma convincente uma mentira...

- Mas foi o que eu disse.

Ele sorriu, me pegou da melhor forma que pode e me carregou mata a dentro. Estava mais uma vez sob seus cuidados.


(…)


Os dias que se passaram foram tratados com desconfiança diante de ambos, buscávamos fugir de assuntos que nos trouxessem problemas. Fazendo com que os nossos diálogos silenciosos começassem a incomodar e éramos forçados a falar. Os rituais em volta daquela mesa retangular, longa e espelhada não aconteciam há muito tempo e a razão por estar ali envolvida com ele, estava se perdendo. Ele havia deixado de ser quem era e começava a ser quem eu queria que fosse. Novas razões foram sendo criadas. Mas nunca deixaríamos de ser quem éramos, um dia o monstro bateria em nossas portas mais uma vez.

Algumas coisa dentro de mim, estava me sufocando, como mãos que pressionam com força um pescoço, até que ele fique frio. Me lembrava com certa constância daquelas cordas em meu pescoço, braços e perna. Eu seria mãe, a situação começava a se reverter. Naquela casa não havia espaço para isto. Ir embora não era mais uma solução. Era hora de transformar tudo aquilo em algo eterno. Numa tarde longa de outono, em um minuto de distração cortei-lhe a garganta de forma a não dar chance de que ele sobrevivesse.

Deixei seu corpo estirado esperando esfriar. Como uma boa aluna, fiz o que ele havia me ensinadonum ritual pagão que me foi transmitido de corpo a corpo através dos séculos, comeu-lhe a carne e bebeu-lhe o sangue*. Mesmo com toda a repulsa, essa era a única lembrança que a criança teria de seu pai. Agora era como ele, mas livre. No final do ano, num dia de verão chuvoso quando finalmente me vejo livre daquela casa e de suas lembranças, perco a criança. Era hora de começar tudo de novo.



* Uma história de tanto amor, Clarice Lispector

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Suspiro

ENTÃO, tenho que dizer: Começando pelo conto, hoje foi engraçado olhar minha folha (sim... para quem não sabe ainda escrevo no papel e depois passo para o computador, dali reorganizo, dali eu coloco no blog, releio e mudo mais alguns detalhes..) e ver que havia mais flechas, asteriscos naquela folha do que o texto em si... E agora preciso dizer que o blog vai estar abandonado por um motivo bem interessante, comecei meu livro. Esse digamos é um dos poucos post que vou fazer até estar com um bom material. Qualquer hora se interessar eu faço um post com alguma coisa do livro :)

Bom, acho que é isso...
---------------------------------------------------------

Quando o sol nasceu nesta manhã morna, minha pele ardeu. Se anunciava mais um dia. E eu, eu fugia, finalmente, da escuridão que me consumia a muito tempo. Meus olhos procuravam se refazer em silêncio, olhos acostumados a não notar cores e formas. O passado me privou de detalhes.. Era como um conto de fadas que terminara como uma tragédia grega, o conflito entre os seus personagens e o destino cravado daquela antiga escuridão, um carrossel. Agora ele está adormecido.

Era como se eu tivesse lutado contra uma direção de uma estrada buscando o amanhecer, tentava esquecer o que ainda trazia dor em algum lugar por aqui. Mas havia uma razão que me fazia querer dar graças ao sol que vinha..
Existia apenas uma única lembrança, há de um dia ter ouvido em meio aos meus confessionários que as dores de minhas palavras em relação ao que vivia arrancavam cada significado e os unia de forma a criar um só sentimento.

O contato do sol com as coisas parecia fazer com que murchassem com o tempo, aquela sensação de entrar em contato com o antigo desconhecido me fez lembrar de quando eu era pequena e costumava brincar na chuva em dias de verão e esperar aquela cólera terrena passar. Em outros tempos nesses dias eu costumava abrir a porta da sacada, sentar no chão, sentir aquele cheiro de terra molhada invadindo meu pulmão e contemplar a água tomando conta de tudo, como se eu possuísse o indomável.

Minha cortina balançava, o vento anunciava uma nova estrada de escolhas. As memórias mereciam ser esquecidas, novas lembranças a cada nova ventania.

A cada minuto novo o sol me tocava mais, meus olhos se abriram por completo e eu pude ver o que a noite sempre me esconderá..